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10 de Outubro de 2011

Depressão na gravidez

Tenho acompanhado muitas grávidas que vivem momentos em que deveriam se sentir felizes com a gestação, porém, sem motivos aparentes, experimentam um sentimento constante de tristeza, semelhante a uma nuvenzinha cinza que as acompanha aonde quer que vão. Nesses casos, observo quase sempre a culpa rondar essas mulheres, que se cobram estar bem e viver esses momentos com alegria. 

Eis as perguntas que são sempre feitas: Por que estão assim? Há motivos para isso? Em alguns casos, há, mas em outros, não. 

A tristeza que persiste por mais de quinze dias e interfere no dia a dia da pessoa, impedindo-a de fazer o que fazia anteriormente, deixa de ser tristeza e muda de nome, passando a ser chamada de depressão, porém necessita ser muito bem diagonticada.

Viver a depressão, tanto para a paciente como para quem convive com ela, não é simples. Nossa sociedade repudia a tristeza como algo proibido. Até que se confirme o diagnóstico, as pessoas sempre têm explicações para o que está acontecendo com quem está deprimido. São comuns comentários de que se trata de algo passageiro, o que nos mostra como é difícil lidar com situações como essa.

A tristeza faz parte da vida e precisa ser integrada a ela. Já a depressão é uma doença e, portanto, deve ser tratada.

Sintomas como perda do interesse e de energia; dificuldade de concentração; alterações do sono, do apetite e da libido; irritabilidade e impaciência; dores sem causa aparente; ideias pessimistas e persistentes; palpitações, entre outros sintomas, também podem caracterizar o diagnóstico de depressão. 

Consultar um especialista quando a tristeza persistir, acompanhada ou não de outros sintomas é importante para a saúde da gestante e também para o bebê que está a caminho. Ele necessitará de uma mãe tranquila e segura para prestar-lhe os devidos cuidados quando nascer.

A depressão requer cuidado, atenção e tratamento. Acima de tudo, porém, deve ser vista como uma oportunidade de atribuir novos significados a muita coisa, porém . 

Recordo-me de que o ideograma chinês utilizado para representar crise é utilizado também para representar oportunidade. Seria essa a oportunidade de entrar em contato com questões nunca percebidas e integrá-las a esse novo momento? 
Com o bebê a caminho, muito já deve ter mudado e ainda mudará. Será que isso assusta?

O uso de medicamentos na gravidez necessita ser prescrito com muita cautela, pois pode prejudicar o desenvolvimento do bebê, Porém, é fundamental que se busque um profissional capacitado para realizar o diagnóstico, pois utilização de medicamento com o diagnótico errado, também pode acarretar problema sérios para a paciente. Nos casos de depressão mais grave, o risco-benefício deve ser avaliado. A psicoterapia pode ser uma possibilidade de tratamento para a melhora dos sintomas e também uma oportunidade de a gestante entrar em contato com o que talvez esteja contribuindo para essa situação. Mas um tratamento não exclui o outro.

No consultório, lido o tempo todo com questões sobre os motivos que causaram a depressão em grávidas que levam uma vida saudável e equilibrada, além de desejarem e terem planejado a gravidez, mas que de repente são tomadas por sentimentos incontroláveis de desânimo e tristeza. 

A depressão na gravidez pode estar relacionada às causas mais variadas possíveis. As mudanças hormonais talvez sejam sua principal causa. A própria gravidez, no entanto, pode mobilizar questões muito primitivas nas pessoas, muitas delas inconscientes, desconhecidas não só pela gestante, mas também por quem convive com ela. Nesses casos, não é raro também nos depararmos com maridos assustados ou até mesmo deprimidos.

A gravidez, assim como o nascimento de um bebê, deve ser um momento especial para as pessoas. Sentimentos contraditórios surgem com frequência, o mesmo ocorrendo com oscilações de humor. O momento deve ser de alegria, mas se não for, é fundamental saber que há motivos e saída para isso.


Por Cynthia Boscovich