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05 de Maio de 2012

A chegada do bebê e as dificuldades iniciais de adaptação

 

No trabalho que desenvolvo com grávidas, mães e bebês, observo que algumas mães nem sempre descrevem o período inicial de vida do bebê como um momento tão mágico e fantástico quanto ouvimos dizer que é. E isso acaba se tornando motivo de angústia e ansiedade, muitas vezes com muita culpa envolvida.

Durante a espera pela chegada da criança, inevitavelmente há expectativas de que tudo seja lindo e florido. É como se o amor e a vontade de ser mãe (ou pai) bastasse para receber esse serzinho tão desejado.

É comum ouvirmos diagnósticos precoces de depressão ou a inclusão de medicamentos que nem sempre são totalmente seguros para o bebê logo nos primeiros dias após o parto, devido ao aleitamento materno. Mas nem sempre estamos falando de depressão ou até mesmo de tristeza. O nome para isso talvez possa ser: dificuldade inicial de adaptação.

Gravidez tranquila, não significa que o início de vida do bebê também possa sê-lo. Parece que estou sendo pessimista – e agora me pego preocupada com as grávidas que estão tendo uma gestação saudável e serena e estão lendo este texto. De forma alguma afirmo que terão problemas. Refiro-me aqui ao que algumas vezes observo na clínica de mães e bebês. Já ouvi muitas delas dizendo frases do tipo: ”Não esperava que fosse tão difícil!”, referindo-se ao fato de não imaginarem o quão complicado seria esse período inicial de vida do bebê. Trata-se de um momento delicado, que requer preparo e adaptação. A chegada de um novo integrante à família seja ele primeiro filho ou não, de gestação múltipla ou até mesmo por adoção, necessita de paciência, tolerância e tempo para as coisas se acomodarem.

Vejo muitas mães, e até mesmo pais, cobrando-se viver um momento perfeito, após o nascimento do bebê, em especial quando tudo transcorreu bem durante a gestação.

Percebo que a dependência absoluta do bebê assusta algumas pessoas. Ela pode mobilizar questões primitivas e profundas, das quais elas nem sempre têm consciência.

A relação com o bebê precisa ser construída. Ele não sabe nada a respeito do mundo e este lhe será apresentado inicialmente pela mãe (ou quem a substitua). A comunicação pode não ser fácil, principalmente nos primeiros dias de vida, e nem sempre é possível identificar com rapidez os sinais que ele dá. Essa relação requer tempo de convivência. O choro, que é a maneira que os bebês têm de se comunicarem com o mundo, pode ocorrer por inúmeros motivos e, nesse momento, é necessário ter calma e serenidade, para entender o que os bebês sinalizam e, a partir disso, atender às suas necessidades. Mas tudo isso seria simples, não fossem as inúmeras questões envolvidas nesse período inicial, como cansaço pela privação de sono, preocupações com o bem-estar do bebê, mudanças hormonais, aspectos da personalidade de cada um, e assim por diante. Não é fácil manter a calma com um bebê aos berros! Que mãe nunca se exasperou em situações como essa?

Contudo, tenho a dizer que vejo sempre uma saída – e isso não significa que as mães devam passar por esse momento sozinhas, enfrentando tanta angústia e sofrimento sem ajuda ou orientação.

Os bebês, no início de sua vida, necessitam que o mundo se adapte a eles, para que depois eles se adaptem ao mundo, a fim de se constituírem psiquicamente saudáveis. E esse início requer preparo, que deve ser feito não só no ambiente físico que vai acomodá-los, mas também internamente, nos pais que devem estar preparados para sua chegada.

É possível, em poucos encontros ou até mesmo em uma única sessão com um profissional qualificado, amenizar a angústia e ansiedade e também receber orientações sobre os cuidados que deverão ser prestados ao bebê, antes mesmo de ele nascer, para que os pais – e principalmente as mães – possam estar preparados, mais confiantes e seguros para esse começo.

Em situações difíceis, acredito que o bom senso e a prudência devem estar sempre presentes. Creio ser imprescindível avaliar caso por caso, tanto os graves e complexos, quanto os muito simples. Nem sempre estamos falando de doenças graves, e fico feliz por saber que elas não ocorrem na maioria dos casos, mas também não devemos menosprezar as angústias e os sentimentos que podem ser compreendidos e orientados, seja na gravidez, no período pós-parto, depois da adoção de uma criança ou em qualquer situação de mudança na vida.

 


Por Cynthia Boscovich